Quando a nossa racionalidade e a nossa humanidade operam em estreita colaboração podem daí advir momentos, situações ou criações sublimes. Esta asserção pode ser justificada com exemplos retirados dos mais variados campos da arte. Mas em actividades ligadas à educação ou à ciência também pode ocorrer de forma mais flagrante essa interessante associação entre racionalidade e humanidade.
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A história que se segue, transcrita de uma tira do jornal Fórum Estudante que guardo há alguns anos (como guardo a só a tira, não a posso referenciar correctamente) demonstra isso mesmo:
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«Um professor do Departamento de Física de uma Universidade Portuguesa, conhecido por fazer perguntas como "Porque é que os aviões voam?", colocou na prova final de Maio de 1997 da turma de "Transmissão de Momento, Massa e Calor II" uma única questão:
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"O Inferno é exotérmico ou endotérmico? Justifique a sua resposta." (ou seja, se o Inferno é um sistema que liberta calor ou que recebe calor.)
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Vários alunos justificaram as suas opiniões baseados na Lei de Boyle ou em alguma variante da mesma; porém, um dos alunos escreveu o seguinte:
"Primeiramente postulamos que se as almas existem, então elas devem ter alguma massa. Se tiverem, então uma mol de almas também tem massa. Então, em que percentagem é que as almas estão a entrar e a sair do Inferno? Eu acho que podemos assumir seguramente que uma vez que uma alma entra no Inferno, nunca mais sai. Por isso, não há almas a sair. Para as almas que entram no Inferno, importa considerar as diferentes religiões que existem no mundo hoje em dia. Algumas dessas religiões pregam que os não crentes vão para o Inferno. Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projectar que todas as pessoas e almas vão para o Inferno. Considerando a evolução actual das taxas de natalidade e mortalidade, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no Inferno.
Agora importa atentar sobre a taxa de mudança de volume no inferno. A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem constantes, a relação entre a massa das almas e o volume do Inferno também deve ser constante. Existem então duas opções: 1) se o Inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura vai aumentar até ele explodir; 2) se o Inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão irão baixar até ao congelamento do Inferno. Qual das duas opções é a correcta? Se nós aceitarmos o que aluna Teresa Maria me disse no primeiro ano: "haverá uma noite fria no Inferno antes de eu me interessar por ti" e levando em conta que apesar de gostar muito dela ainda não obtive sucesso na tentativa de cativar a sua atenção, então a opção 2 não é verdadeira. Por isso, o Inferno é exotérmico".
O aluno António José tirou o único "20" na turma.»
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Na prova final de "Transmissão de Momento, Massa e Calor II", é interessante a forma como o aluno António José recupera um momento de comunicação interpessoal para o aliar ao seu pensamento racional - Fisher e Adams* teriam certamente interesse em ler a resposta: primeiro, porque o caso demonstra claramente como um episódio comunicativo pode exercer uma influência mais ou menos pronunciada noutro episódio comunicativo, decorrente até noutro contexto (tal como se verifica na situação supra-apresentada); segundo, porque a ligeireza desta análise do comportamento sistémico do Inferno (em Física!!!) está próxima do estilo descontraído com que se desenvolve o raciocínio em determinadas partes da obra Interpersonal Communication* - a mim, parece-me que esta obra se assume também como um bom exemplo de conjugação de racionalidade e humanidade.
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Se já são desarmantes as análises à variação da massa e à taxa de mudança de volume do Inferno, a magia resulta sobretudo da conclusão final, em que o aluno António José procura suporte na frase marcante da aluna Teresa Maria: "haverá uma noite fria no Inferno antes de eu me interessar por ti".
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*Fisher, Aubrey & Adams Katherine - Interpersonal Communication: Pragmatics of Human Relationships - New York: McGraw-Hill, 1994.
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Espero que apreciem a história tal como eu apreciei.
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J. Mendonça